
Fazem anos, muitos anos (talvez uma década) que um motivo não desperta em mim, assim de forma tão ardente, a vontade de escrever algo que não seja da ordem jornalística. Me lembro bem deste outro dia, até com detalhes, era janeiro ou fevereiro de 1999. Época em que fui apresentada a José Saramago, não em carne e osso, por óbvio, mas à sua obra, sua escrita – que inevitavelmente, de uma forma ou outra, o contém.
Neste dia, que não consigo localizar com precisão no calendário, provavelmente fazia calor em Florianópolis, a Ilha de Santa Catarina, onde eu e minha família passávamos as férias. Após um passeio pela livraria, meu padrasto voltou para casa satisfeito, com uma exemplar de “O Conto da Ilha Desconhecida”, de Saramago, a quem ele já conhecia e admirava. Por mais incrível que pareça, me lembro como se fosse hoje, o seu olhar de surpresa e alegria, ao encontrar aquele exemplar na prateleira.

Meu padrasto aproveitou os dias de descanso para ler o novo livro – um conto. Não era extenso e ele não deve ter levado muito tempo para realizar a leitura. Então, foi a vez da minha mãe.
Fascinada pelo conto, ela logo se convenceu que deveria me mostrá-lo. Seu encanto era tanto, que resolveu lê-lo para mim – na época eu tinha apenas 10 anos. Lembro que me deitei na rede e ela se sentou ao meu lado, iniciando a leitura: “Um homem foi bater à porta do rei e disse-lhe, Dá-me um barco. A casa do rei tinha muitas portas…”
Minha mãe fez um esforço típico dos que amam, para me fazer entender aquela linguagem –o português de Portugal, as palavras que se entrelaçavam perfeitamente, as expressões que eu – a quem faltavam anos e maturidade – custava a entender.
Este fato, para sempre, marcou a minha história. Achava tão inusitado minha mãe ler um livro pra mim, coisa que naquela altura eu poderia fazer perfeitamente sozinha. Depois da leitura, à duas, é que veio a inspiração, assim, de repente. Sentei-me na mesa da sala e escrevi um poema chamado a Ilha Desconhecida. Não recordo de ter escrito outra poesia que não essa. Talvez tenha sido meu ápice como poetisa, aos 10 anos. Depois, dediquei-me quase exclusivamente à prosa, às notícias, aos artigos acadêmicos. Mas nunca mais deixei Saramago se afastar de mim e tornei a escrita a minha vida, por profissão e teimosia, por admiração, mais do que talento.
Em 2005 pude vê-lo, em carne e osso, no Fórum Social Mundial, em Porto Alegre. Não consegui chegar muito perto, pois haviam muitos outros admiradores além de mim, mas guardo até hoje as suas palavras, ditas por trás dos grandes e quadrados óculos que ele carregava consigo, num sotaque típico de um Português de Portugal: “A utopia é uma palavra que deveria ser arrancada dos dicionários”.
Não sei dizer o que Saramago significa para mim. Não foi com ele, exatamente, que aprendi a duvidar de Deus, da religião, mas suas palavras, sem dúvida, ajudaram a formar a minha personalidade, especialmente no que diz respeito às questões do espírito. Foi com ele que passei a me aventurar pela literatura, pelas palavras, carregando sempre o sonho de poder arranjá-las, pelo menos um pouco, como ele.
Quando me fascino demais pelas pessoas, pelas coisas, me faltam as palavras, o pensamento bloqueia. Este é um caso típico. Para Saramago, deixo apenas a minha mais ousada poesia, no auge dos meus 10 anos. Deve ser levada em conta, é claro, a proporção entre idade e repertório.
A Ilha Desconhecida
A ilha desconhecida, jamais aparecida
Sempre procurada, nunca encontrada
Onde fica essa ilha?
Escondida?
Fica no meio do mar?
Ou em qualquer lugar?
Fica na imaginação?
Na realidade, eu não sei não…
Fica no pensamento?
Ninguém acha ela, será que tem medo?
Será que tem medo da vida?
Por isso vive escondida…
Agora fico aqui pensando que caso Saramago tenha encontrado com Deus, os dois pelos menos terão muito o que conversar…